14.8.08

No Banheiro


Na semana passada tive o privilégio de conferir a pré-estréia do primeiro filme de uma amiga queridíssima! Ela, que é um poema em prosa em verso personificado, me orgulha por demais – agora que é cineasta então!!! Acompanho já há algum tempo o desejo dela de estudar cinema, objetivo este que ela vem concretizando na Escola Livre de Cinema.

Ao final da exibição do filme, ela foi logo cobrar dos amigos as críticas... Estava ansiosíssima, coitada! Disse a ela que só me pronunciaria, por e-mail, no dia seguinte. Cheguei a pedir que me enviasse o cartaz para que eu pudesse publicar uma resenha crítica AQUI. E não é que ela mandou, cedinho, o cartaz?! Porém, a correria da última semana foi tanta, que eu desisti de redigir a resenha crítica, pois precisaria ser mais criterioso na redação. Assim, enviei a crítica por e-mail mesmo, em tom bem informal. E ela não me deu retorno algum... Ah! Fiquei tão chateado com ela... Até que, ontem, descubro que quem ficou chateada nessa história foi ela, que NÃO RECEBEU o e-mail. Garanti reenviá-lo hoje, pois utilizei o e-mail do trabalho para enviá-lo. MAS, na correria da manhã, acabei esquecendo de reenviá-lo... ai que vergonha.

Para não protelar mais minhas considerações sobre o NO BANHEIRO, vamos lá! ANTES, devo ressaltar que me é bastante complicado ficar isento ao redigir uma crítica sobre o filme. Primeiro, porque eu AMO a diretora! Segundo, porque eu AMO banheiro!

De acordo com a sinopse, NO BANHEIRO é um “Drama bem-humorado que apresenta a relação peculiar de um homem comum com seu banheiro.”. Quanto a ser bem-humorado, ratifico de imediato a informação! DIVERTIDÍSSIMO!!!! Já em relação ao homem comum... bem, tenho certeza que a maioria das pessoas que conferirem o curta, dirão que o cara é louco! Particularmente, acho ele mais do que comum MESMO. Temos preconceitos mesquinhos em relação ao comportamento e manias do outro... isso porque somos, muitas vezes, incapazes de nos observar.

Protagonizando a trama, um cara que gosta de futebol, que trabalha, que gosta de mulher (isso não é mais tão comum hoje em dia (rss!) e que tem uma relação peculiar com o seu banheiro. Peculiar porque ele GOSTA do banheiro dele. É onde ele se sente mais ele, mais próximo de si mesmo. Sua saga é comprar uma nova privada. Nessa busca, ele acaba se apaixonando por uma mulher que também tem uma relação peculiar com banheiros.

Nada melhor que a sua cara-metade ter os mesmos gostos que você, não é? QUE NADA... dependendo, esse gosto pode gerar uma relação de disputa... e é o que acontece com o casal que se ama NO BANHEIRO! E a relação dos dois quase acaba quando ela resolve construir a própria “casinha” (quem me conhece sabe que eu chamo banheiro de casinha!).

Achei que foi uma sacada incrível a construção do roteiro. Escolherem um “detalhe” (o banheiro) para narrar a relação de um jovem com ele mesmo e com uma segunda pessoa. Poderia ser qualquer outro objeto, ou local. Mas o banheiro remete à idéia da INTIMIDADE, algo tão pouco respeitado e valorizado nos dias de hoje.

Tenho que me conter um pouco aqui... rsss... Também tenho uma relação muito peculiar com banheiros, e acabei me identificando bastante com o protagonista. Assim, corro o risco de revelar neste espaço virtual detalhes da minha intimidade que só são reveladas lá NO BANHEIRO!

Achei de muito bom gosto o curta! O humor é leve e natural. As locações foram bem escolhidas. O elenco é ótimo, a trilha sonora pertinente (tem curtas cuja trilha sonora parece ter sido incluída “só pra constar”. A fotografia é PERFEITA – e não estou puxando o saco não! Conseguiram ângulos perfeitos em várias cenas, como em uma na qual a câmera é colocada dentro da privada, além de outra que flagra o momento exato do corte na pele do cara ao se barbear.

Minha querida diretora, antes da exibição, fez questão de ressaltar que o filme foi terminado às pressas para a exibição e que havia cenas que foram incluídas somente para “tapar buracos”. DUVIDO! Não senti falta de NADA. Tudo estava muito bem amarrado, do início ao fim dos créditos. O único ponto fraco foi a qualidade do áudio – única observação que fiz a ela no dia.

Para não dizerem que sou muito piegas falando apenas bem do filme, teve algo que achei PÉSSIMO. Mas que não é “defeito” de NO BANHEIRO, mas sim da maioria dos filmes (curtas ou longas) produzidos hoje. Assim, não é exatamente uma crítica ao NO BANHEIRO, mas um desabafo em relação à sétima arte contemporânea. Há um close GIGANTE da fachada da loja que patrocina o filme. Isso me brocha TANTO. MAS, fazer o quê. É o preço que se tem que pagar, para reduzir um pouco o gasto com outras tantas coisas (mais caras) que se precisa pagar para produzir um filme.

Enfim, NO BANHEIRO é FANTÁSTICO. Com uma sensibilidade incrível consegue levar à tela detalhes do cotidiano humano que se são sufocados pela correria e estresse do dia-a-dia. Toda equipe está de PARABÉNS pela produção. E tenho a considerar ainda que, se esse foi o primeiro, mal posso esperar pela próxima produção de minha queridíssima cineasta REBECA DE PAULA!

P.S.: Ainda vou redigir uma resenha decente para que seja publicada no blog do NO BANHEIRO!

6.8.08

O Homem Sensual

"Satanas sum et nihil humani
a me alienum puto"*

Há pouco tempo, publiquei um texto em que comentava o exemplo do “Homem Bom”, descrito por Dostoiévski no livro Os Irmãos Karamazovi. Como disse, este foi o romance que mais me inquietou. Exatas 747 páginas que foram lidas, compulsivamente, em apenas cinco dias. Chegava ao cúmulo de dormir lendo o livro, sonhar com a continuidade do capítulo onde parei a leitura, e acordar com ele já em mãos. E devo dizer que não foi uma leitura superficial. O li com um bloquinho de post-it ao lado, fazia pequenas anotações referentes a trechos que me despertavam maior interesse, e afixava na margem da respectiva página.

Dostoiévski faz um retrato muito cru do comportamento humano neste livro. Cada personagem é descrito, no aspecto psicológico, minuciosamente. E eu fazia associações entre os personagens e as pessoas que conheço. Obviamente, me identificava bastante com vários deles também.

Como já registrei no post sobre “O Homem Bom”, o filósofo deixa claro que o comportamento humano se finda no egoísmo. Mas esse egoísmo se manifesta de formas diferentes em cada ser humano. Naquele texto, falei de Aliócha, que é o diminutivo de Alieksiéi Fiódorovich, caçula entre os Karamazovi. Hoje, vou falar do irmão do meio: Ivã Fiódorovich Karamazov. (apenas a título de curiosidade, no russo se acrescenta a letra “i” em alguns plurais)

Sem dúvida, Ivã é “o mais sensual entre os Karamazovi”, como afirmado pelo próprio autor. Mais até que o próprio pai, Fiódor Pávlovich Karamazov, que era um completo devasso, entregue a todo tipo de viciosidade e lascívia. Dostoiévski usa várias vezes o termo “sensual” ao se referir a Ivã e ao pai, mas não no sentido da sensualidade física. Até porque, pela descrição, Fiódor Pávlovich de bonito ele não tinha nada. Já Ivã parecia provocar certo furor nas mulheres. Porém, o “sensual” se refere, no contexto, ao caráter lascivo de ambos e à libertinagem a qual ambos se entregam (Ivã não era tão libertino, mas ainda assim era o mais sensual...)

Ivã era dotado de um ego imenso. Extremamente inteligente, era o mais culto entre os três irmãos. Sabia outros idiomas, fez curso superior, era autodidata e muito meticuloso... Sua condição o tornara num homem extremamente vaidoso, e se julgava superior a todos. Conhecimento é poder e ele sabia disso – e se aproveitava muito bem do poder que o conhecimento lhe conferia.

Por causa do ego gigante, não se dava muito bem com o pai. E a certa altura, traiu o velho tirano roubando-lhe uma boa parte da fortuna. Com medo de ser castigado, Ivã foge. Sabia os extremos da ira do pai, e jamais esperaria pela punição.

Nesse ponto chega uma das partes mais excitantes da trama! Para fugir do castigo, Ivã decide partir para Moscou. Porém, antes se refugia numa choupana. Lá, ele tem uma grande alucinação. Ele vê o demônio sentar-se na cama, e trava um longo diálogo com ele. Ivã, que era ateu, se vê desesperado. Ora! Para se crer no diabo, é necessário se crer em Deus – isso é uma condição sine qua non. Mas é aí que está o X da questão. O demônio era apenas uma imagem figurativa, já que a briga verbal era travada entre Ivã e sua própria consciência.

De certa forma, Ivã acreditava que era lícito o roubo ao pai, pois a fortuna do velho lhe seria de direito. Mas ele não conseguiu se manter ileso ao sentimento de culpa. Sua alucinação dura uma noite inteira, em meio a uma febre altíssima. E o diabo (sua consciência) continua lhe atormentando nos dias que se seguem. Ele acaba por ficar completamente louco.

Salvo engano, no livro Crime e Castigo (que AINDA não li), anterior ao Os Irmãos Karamazovi, Dostoiévski já faz menção a esse exemplo de Ivã: o pior castigo a um grande erro é sempre o que é imposto pela própria consciência.

* Em latin, no original: "Sou satanás e nada do que é humano reputo alheio a mim"

5.8.08

Marcas


Voltei ontem de uma viagem inesquecível. Levei uma mala pesada, repleta de ansiedade e expectativa. Trouxe de volta uma alma leve e feliz. Fui marcado por sentimentos nobres, que sempre almejei experimentar. Voltei com a certeza de que se é possível sim conhecer alguém que seja capaz de lhe completar de alguma forma.

Cicatriz

De volta ao mundo (sur)real, tive um dia tenso. Marcado por encontros e desencontros, permeados por longas conversas e insuportáveis silêncios. Nada pior que o sentimento de culpa, que deixa cicatriz difícil de desaparecer. A culpa culminou em uma angústia sufocante. Várias vezes, inclusive na manhã de hoje, tentei dizer FODA-SE, mas não consigo ignorar os meus sentimentos, menos ainda desconsiderar os de quem tanto quero bem. Espero aprender a lidar melhor com essas situações...

Autógrafo

A caminho do trabalho hoje, um pedreiro, bêbado, sentou-se ao meu lado no ônibus e logo veio puxando papo. Eu não estava muito disposto à prosa, mas meus pensamentos me consumiam tanto que resolvi dar atenção ao pobre coitado, para tentar me distrair um pouco. Ele reclamava as mãos calejadas após dezoito anos de trabalho pesado na construção civil. Disse-me sonhar que seus filhos tenham melhores oportunidades que ele, e que jamais trabalhem com o mesmo ofício. Nisso, toca meu celular. Era a âncora da emissora onde trabalho. A cumprimentei pelo nome (que é exótico e bem conhecido) e logo avisei ter acabado de ver um taxista sendo preso no centro, fato que deveria ser checado. Encerrada a ligação, o pedreiro, afoito, me pergunta quase aos gritos "Você é da imprensa? Caaara... Eu nunca conheci ninguém da imprensa". Tentei dizer a ele que ainda não sou formado, que sou apenas um aspira, mas o cara tava emocionadíssimo! Começou a falar ainda mais dos filhos, e que vai tentar fazer com que um deles seja jornalista. E começou a me encher de perguntas, inclusive em qual emissora eu trabalho... No final das contas, o cara me IMPLOROU um autógrafo. Eu dizia "meu amigo, eu não sou famoso, ninguém me conhece, meu nome é comum... Não faz sentido eu te dar autógrafo". Nisso meu interlocutor retruca. "Por favor... eu quero muito mostrar para meus filhos que conheci um jornalista. Escreve aí qualquer palavra de incentivo pra eles, por favor". Atendi ao pedido: "Para os filhos de José desejo que voem longe usando as asas da leitura. Daniel Silveira". Espero que, realmente, meu autógrafo (aHAUhaUhauAHuaHauhA) possa inspirar os pequenos a ter melhores perspectivas de vida!

21.7.08

O Homem Bom

"...Cordeiro de Deus,
Que tirai os pecados do mundo,
Tende piedade de nós..."




Estive mergulhado na sétima arte nos últimos dias. Tenho a sensação de que isso não me fez muito bem... Fui submetido a um processo catártico de forma muito intensa e complexa. Para quem não conhece o termo, tendo elucidá-lo de forma um pouco objetiva e superficial: Aristóteles, ao estudar a tragédia (entenda-se contemporaneamente como qualquer forma de expressão artística) definiu a catarse, ou a “purificação das paixões”, como o efeito provocado no público em contato com dramatização do sentimento humano. Freud, séculos à frente, também iria se apropriar do termo em sua teoria psicanalítica. Em outras palavras, a catarse funciona da seguinte forma (tomarei como exemplo o cinema): ao assistir um filme, o espectador inicialmente se identifica com determinada personagem, em seguida ele vivencia o mesmo sentimento da personagem, e depois ele julga a atitude daquele personagem, momento do qual ele “volta a si”, distanciado da trama. Aí, tem-se início um novo ciclo do processo catártico.

No “Tropa de Elite”, por exemplo, ao acompanhar o drama do Nascimento, quantas vezes o espectador se sente empático ao sofrimento dele, e quantas vezes ele repudia as atitudes do soldado? Os elos de identificação (e de julgamento) com a personagem são os sentimentos que partilhamos com ela. E o sentimento expresso através da arte é capaz de nos permitir “purificar” os nossos sentimentos. Muitas vezes, nos valemos da atitude de vingança tomada por uma personagem, por exemplo. Nos apropriamos daquele sentimento de vingança e torcemos para que a personagem a sacie. E nos sentimos ótimos quando ela consegue!!! “Panis et circenses”, já dizia um sábio Rei!

Dentre os filmes que me imergiram em profunda catarse, destaco Manderlay, do dinamarquês Lars Von Trier. É o segundo filme da trilogia referente ao Dogma 95, movimento proposto pelo diretor. De forma bem sucinta, o Dogma 95 é um movimento cinematográfico contemporâneo, proposto através de um manifesto assinado em 1995, que pretende o resgate da sétima arte tal como ela era concebida no seu início, e prevê regras rígidas na produção de um longa-metragem. Manderlay, e seu antecessor Dogville, não seguem à risca todos os dez postulados do manifesto, mas são impecáveis quanto à valorização da dramatização cênica e na riqueza do minimalismo.

Não gosto de comentar muito os filmes, pois acabo entregando o final da trama. E ambos os filmes do Lars Von Trier eu indico a qualquer pessoa. É necessário assistir primeiro Dogville, pois Manderlay é a continuação da saga de Grace (no primeiro quem a interpreta é a incontestável Nicole Kidman; já no segundo é Bryce Dallas Howard, que o faz bem, mas sem o mesmo charme da Nicole).

O que me interessa comentar é que Von Trier é FANTÁSTICO! Ele consegue transmitir de forma muito crua a essência do comportamento humano. A trilogia procura fazer um retrato da sociedade norte-americana. E o que ele consegue é traçar um perfil de toda a humanidade. Ainda não assisti ao útlimo da trilogia, Wasington (sem o “h” mesmo, lançado em 2007) e estou ansioso agora.

Não adianta. Somos muito mesquinhos e hipócritas ao julgarmos as atitudes alheias. Todos nós, sem exceção, somos dotados de amor, compaixão, ternura, carinho... Mas também de ira, raiva, vingança, ódio, preguiça, ganância... Relutamos muito em assumir que valemos tão pouco quanto aquele para quem apontamos o dedo, ousando qualquer tipo de julgamento. Mas dificilmente reconhecemos isso. Grace, personagem chave da trilogia, representa essa nossa condição de forma muito crua mesmo.

Por causa das reflexões pós Manderlay, lembrei-me muito de um dos romances que mais me inquietou: Os Irmãos Karamazovi, do Dostoiévski, devorado compulsivamente em apenas cinco dias. O filósofo retrata, assim como o cineasta dinamarquês, a essência do comportamento humano, mas usando como objeto de estudo a sociedade russa de meados do século XIX. Através de todos os personagens, que são meticulosamente detalhados por Dostoiévski, vê-se nitidamente o quanto a raça humana pode ser considerada a escória da criação divina. (Sim, eu realmente estou em um estado de ligeira (!) revolta.) Em suma, compreendo que a essência do homem se concretiza em um único sentimento: o egoísmo.

No romance de Dostoiévski, ele aponta Aliekisiei Fiódorovich, o caçula Aliócha da família Karamazov, como o grande herói da trama. Ele representa o exemplo do “homem bom”, que se resigna dos próprios prazeres para sofrer a dor alheia. Ele almeja se tornar um monge, e tenta exasperadamente basear sua conduta na caridade, no amor e no respeito ao próximo. É linda a história do jovem Aliócha! Mas, basta um olhar um pouco mais atento para se perceber que também o “grande herói” do nosso filósofo age de acordo com sua essência: egoisticamente. Talvez seja uma visão muito intransigente e pessimista da minha parte, mas para mim é claro que ele pratica o bem em benefício de seu próprio ego. A caridade para ele, assim como para tantos iguais a ele, é uma forma de satisfação pessoal ou de percurso para atingir um objetivo próprio, não uma atitude espontânea e explícita de solidariedade.

P.S.: Acho que ficou claro que tanta catarse não me fez bem, não é?!

13.7.08

Brusco

Relendo:
Dois ou três almoços: uns silêncios – Caio Fernando Abreu

"Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus -, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou isso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro...”




Se fosse uma receita, seria assim:

* Pegue o estado de espírito em carência aguda;
* Acrescente resto de paixonite mal resolvida;
* Bata bem com a sensação de que nada acontece e de que nada vai acontecer;
* Surpeenda-se com uma pessoa interessante que surge do nada;
* Adicione encanto;
* Idealize o romance à gosto;
* Misture lentamente as características positivas (e idealizadas) da pessoa interessante;
* Acrescente a essa mistura certa necessidade desenfreada de satisfazer a libido;
* Use música, cinema e literatura para confeitar;
* Acrescente fermento;
* Deixe a massa descansar;
* Saboreie ainda quente.

Para garantir o sucesso da receita, cuidado com o encanto: se utilizado em grande proporção, pode fazer com que a massa fique muito fina e se quebre facilmente. Se a idealização também for excessiva, corre-se o risco de que fique cru. Fermento é fundamental e precisa ser acrescentado, aos poucos, por ambos. Do contrário, você vai saborear o prato sozinho. Se saborear.

10.7.08

Caminhando...



Novamente venho falar das escolhas. Difícil, muito difícil tomar decisões. Você pode ganhar por um lado, perder pelo outro, ganhar nos dois e também perder de vez. E cada escolha pode ter desdobramentos diversos, que novamente vão requisitar novas tomadas de decisão. Possível saber qual a escolha certa? O que é certo e o que é errado?

Paradoxal o conceito de certo e errado, que se finda na Lei de Murphy: se uma coisa tem que dar certo e dá certo, ela deu certo; se tem que dar certo e dá errado, ela deu errado. E se essa coisa tem que dar errado e dá certo? Ela deu errado. E se tem que dar errado e dá errado, ela deu certo! (aí que entra o filho-da-puta do Murphy: se tem que dar errado, dará errado dá pior forma possível...)

Fiz muitas escolhas erradas, após ter acertado em tantas outras. Isso foi no ano passado. As primeiras, deram certo. As segundas, deram MUITO errado. Fiquei mal, sofri demais, cheguei a não ver mais caminho. Não encontrava lugar firme para apoiar meus pés. Estava perdido e sem muitas esperanças das coisas darem certo de novo.

É impossível voltarmos atrás em nossas escolhas. Mas nos é permitido, sempre, fazer novas escolhas. E essa é uma das grandes mágicas da vida! Para isso temos o livre-arbítrio.

Parei de reclamar as decisões erradas que tomei e quebrei muitos paradigmas. Me enchi de coragem e comecei a mudar as minhas atitudes. Tudo estava tão bagunçado na minha vida... equilíbrio ZERO entre minhas partes física, psicológica e espiritual. Comecei a abrir mão de muitas coisas para conseguir conquistar novos objetivos – não se pode ter tudo sempre, por isso ceder é fundamental.

Sinto-me mais forte, mais confiante. Reconheço minhas limitações, mas potencializo minhas habilidades. Procuro a voz divina no silêncio interior e me enterneço. Me encaro no espelho e reconheço o brilho nos olhos. Sorrio, muito!

Sei que ainda há muito tropeços pelo caminho afora. Mas o que importa é que agora, no HOJE, estou seguro para pisar no chão firmando bem o corpo, e para caminhar nas nuvens sem que minha idéias se espalhem com o vento...

Estou muito feliz, como há tempos não me sentia. E devo esse estado de espírito, em grande parte, às pessoas maravilhosas que Deus colocou no meu caminho, seja há anos, ou há meses!



Relendo:
Para Ser Grande (Ricardo Reis)

Para ser grande, sê inteiro:
Nada Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha,
Porque alta vive


3.7.08

Jornalisticamente falando

Tenho uma revelação a fazer que poderá frustrar muitos leitores: jornalismo não é feito por jornalistas, mas por empresas jornalísticas. Com isso quero dizer que não é o profissional que seleciona e define o que é ou não notícia. É inerente à profissão ser um serviço público que se presta a uma função social: informar, denunciar e cobrar interesses sociais. Mas na prática as coisas, infelizmente, não funcionam bem assim, sinto dizer. Há mais coisas entre a redação e o comercial do que a graduação consegue explicar.

O eixo teórico-humanístico do curso é lindo! A propósito, sabiam que o jornalismo é a única profissão que tem seu código deontológico alicerçado sobre os princípios iluministas? Nosso código de ética foi inspirado por grandes filósofos como John Locke, Montesquieu, Voltaire, Rousseau... é lindo mesmo! Daí a gente se empolga e acha que vai mudar a humanidade! Desculpem-me a frieza, mas é bom que saibam (principalmente os que querem se arriscar no ramo) que no mercado, a cabeça do jornalista fica na redação, mas seu pescoço no departamento comercial. E lá ninguém nunca ouviu falar em social.

Esse registro não significa necessariamente uma revolta, apenas um desabafo. Aproveitando o ensejo, vou ponderar algumas coisas que têm me incomodado bastante na imprensa atualmente. Já que na emissora eu não posso opinar, vou rasgar o verbo aqui! Vamos às editorias de maior destaque:

Política
Será que ninguém percebe que essa putaria, digo, polêmica dobradinha PT/PSDB para sucessão municipal de Beagá é uma grande jogada em prol de uma campanha eleitoral gratuita e massificada? Ou seria muito radicalismo da minha parte? Já ultrapassou o nível da palhaçada toda essa história... A máxima do “falem bem ou falem mal, mas falem de mim” já não vale. Pela lei leitoral, não se pode mais falar nem bem nem mal de candidato algum antes do dia 5 de julho (por isso, nem ouso citar nomes porque ainda estamos no dia 3!). Porém, no caso da putaria, digo, da proposta de aliança entre os partidos a lei não considera que se esteja fazendo pré-campanha alguma. Mas os nomes dos possíveis pré-candidatos estão aparecendo, e muito. A máxima agora é “não falem de mim, mas citem meu nome, please!”. Minha antipatia ao tema é tamanha, que indago até a possibilidade do Duda Mendonça estar por trás dessa jogada de marketing...!

Economia
Taxa de juros, IPC-A, Dow Jones e bla bla bla. Economia é isso: índices, números, siglas, taxas, especulações, etc. Mas o cidadão comum pouco entende disso. Interessa a ele saber do que tem no bolso. Então o repórter atencioso tangibiliza essa confusão toda para tornar a informação mais prática. Lá na emissora, usamos muitas pesquisas de preços, dos mais diversos segmentos de produtos e serviços. Isso é muito bacana, porque o público fica sabendo que no Posto A a gasolina é mais barata que no B, ou que salões de beleza da região X cobram dez vezes mais que aqueles localizados na região Y. Porém, nunca essa pesquisa é feita nas ruas. Usamos a de um site, especializado no assunto, que realiza no mínimo duas pesquisas por semana. Bem mais prático, porque ela já chega mastigada e o próprio dono do site a digere para nós. Curioso é que em todas as pesquisas desse site, os estabelecimentos consultados são sempre os mesmos... e o site tem pouquíssimo espaço publicitário... mas ainda assim eles têm receita para manter o volume de pesquisas, a hospedagem do site... De forma alguma estou sugerindo que tais pesquisas sejam compradas... imagine! Talvez, apenas um pouquinho tendenciosas... bem pouquinho! Mas gostaria muito de poder sugerir que a emissora, ao menos, fosse mais honesta com o público que tem e assumisse a fonte não como pesquisador, mas como colunista.

Cidade/Gerais
A tal da Lei Seca tem gerado muita discussão. Particularmente, acho que realmente já passava da hora de o Brasil ter uma legislação mais severa quanto à questão álcool x trânsito. Veículos automotores são armas poderosíssimas... Mas o que não concordo, de forma alguma, é que no afã dessa polêmica, em que há tanto o que se analisar e ponderar, a imprensa local fique no pé da Polícia Militar cobrando maior fiscalização. Belo Horizonte tem mais roubos e furtos per capita que o Rio de Janeiro. A capital mineira também ganha da carioca quanto à percepção de insegurança. De acordo com a minha pesquisa, ainda em andamento (Velório à Moda Mídia: a cobertura de homicídios na Região Metropolitana de Belo Horizonte), a cada semana pelo menos sessenta pessoas são assassinadas na Região Metropolitana. Esse número é bem maior que o de vítimas de acidentes de trânsito. Não deveria a PM estar mais empenhada em coibir e punir esses crimes que em flagrar motoristas alcoolizados? Por que não colocar nossos agentes de trânsito para fiscalização? Afinal, agora que a meta de multas diárias deles foi suspensa, eles têm mais tempo para realizar blits!
P.S. Comentário irônico: a Lei Seca pode ser a solução para o caos no trânsito de BH. Em uma semana de intensas blitz na capital nacional dos bares, pelo menos metade dos motoristas habilitados teriam a carteira suspensa. Resultado: menos veículos nas ruas, o que elimina a necessidade do rodízio!!!!!

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COMENTÁRIOS RELATIVOS AO ÚLTIMO POST

Para os desinformados e/ou desatentos, abaixo de cada texto publicado no Solilóquios há um link chamado COMENTÁRIOS. Ele serve para que os leitores registrem suas opiniões, críticas, sugestões, dúvidas... Não que eu me importe de receber os comentários via MSN, e-mail, telefone ou pessoalmente. Mas, se há o espaço específico, porque não usá-lo, gente?! Faço até um acordo com vocês: passo a registrar tréplica aos comentários... que me dizem????

Percebi que a última frase do post causou certo desconforto em muita gente... rs. Três pessoas me questionaram qual a relação entre o casamento e a coca-cola. NENHUMA, esclareço então. Foi apenas uma singela alusão à letra da música “Alegria, Alegria”, do Caetano Veloso, precisamente ao verso em que ele diz: “Eu tomo uma coca-cola, ela pensa em casamento, e uma canção me consola”. Eu nunca pensei em me casar, sempre relutei a conceber essa idéia. Mas, de um tempo para cá, tenho concordado com o Tom: “É IMPOSSÍVEL ser feliz sozinho”. Com receio dos pensamentos matrimoniais, quis sugerir que a coca-cola pode me ajudar a afastá-los. Preciso colorir, ou me fiz entender?!

Por fim, acalmem-se meus amigos: eu não estou apaixonado. Acreditem, agora mantenho um pé firme no chão. Só um, o que já é um mega progresso. O outro eu deixo suspenso porque, afinal, aquela certa insanidade até que me faz bem, vocês sabem!

2.7.08

Post aromatizado

Relendo:
Fragmentos – Caio Fernando Abreu

"E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros.”



Que cheiro teria aquele corpo? Essa dúvida me aflige. Aflição não é exatamente o termo que deveria usar, pois não há tormento algum, pelo contrário. Há desejo – e muito. Mas, sob certa ótica, desejo pode significar aflição a partir do momento que ele surge da falta – no caso, da falta do outro. Fato é que saber qual o cheiro teria aquele corpo me ajudaria a “colorir” melhor o esboço ainda mal traçado. Cheiro é tão importante para mim...

Inspiração para escrever não me falta. Difícil é organizar tudo em palavras – puro sentimento disforme!

Ainda tenho pensado muito no “tal do amor”. Sou um libertino confesso (já registrei isso aqui antes), mas a libertinagem não tem me despertado tanto interesse mais. Hoje me interesso por atenção, por carinho. Quero poder planejar o meu dia pensando em alguém. Incluir esse alguém no meu dia, na minha tarde, na minha noite. Acordar pela manhã e dizer “Bom dia, meu amor”. Parar no meio da manhã e ligar para dizer qualquer saudade. Almoçar e ganhar um beijo, mesmo que telefônico (hã?!), de sobremesa! Ligar novamente no meio da tarde e dizer mais qualquer saudade. Chegar em casa e preparar um bom jantar (a louça eu não lavo, deixo avisado, mas ajudo secar!). Dormir abraçadinho e acordar pela madrugada só para ter certeza de não estar sonhando.

Bem... sou patético enquanto romântico, mas puritano jamais. Então, depois do "Bom dia, meu amor", corpos roçando ainda quentes da cama e... sexo para acordar todos os músculos! Nos telefonemas para dizer qualquer saudade, me excitar e dizer que não vejo a hora de novamente lubrificar todos os músculos. Ao chegar em casa, suado e cansado, um banho a dois para manter a resistência sob a água. Depois do jantar, lavar a louça ajuda a fazer a digestão, o que elimina o risco de uma constipação. Na hora de dormir, algo parecido com "papai e mamãe", só para esquentar melhor a cama.... Bom pra dormir, melhor para acordar...aff...!!!

Ressalvo que essa programação é para os dias úteis, em que a labuta nos consome. Para os fins de semana e feriados, a programação é beeem mais intensa e diversificada!!!!

(Estou muito receoso... de uns meses para cá já começo a considerar a possibilidade de casar um dia... Vou tomar uma coca-cola...!!!)

Ouvindo:
Soneto do Teu Corpo (Leoni)
Voz: Martnália

Juro beijar teu corpo sem descanso
Como quem sai sem rumo prá viagem.
Vou te cruzar sem mapa nem bagagem,
Quero inventar a estrada enquanto avanço.

Beijo teus pés, me perco entre teus dedos.
Luzes ao norte, pernas são estradas
Onde meus lábios correm a madrugada
Pra de manhã chegar aos teus segredos.

Como em teus bosques. bebo nos teus rios.
Entre teus montes, vales escondidos.
Faço fogueiras, choro, canto e danço.

Línguas de lua varrem tua nuca.
Línguas de sol percorrem tuas ruas.
Juro beijar teu corpo sem descanso

29.6.08

Ah, Daniel...

São 5h25 da manhã... (não sei por que comecei o texto assim...!) Bem, agora já são 5h26 da manhã (não, eu não demorei um minuto pra escrever aquela frase, é que o relógio do computador não marca os segundos!) e minha cabeça deve explodir em pouquíssimo tempo... Para ganhar tempo antes que meus miolos saltem, não vou me preocupar com qualquer coerência e/ou coesão.

O frio dos últimos dias não me incomoda tanto quanto o gelo no coração.

Querer me afastar de todo mundo é uma grande farsa. Quero todo mundo bem pertinho (exagero... tem muita gente que quero é ter distância mesmo!)

Quando quis ter um diário pela primeira vez, usei a parede no meu quarto. Quando decidi criar o blog, opitei por não transformá-lo em um diário.

Se eu tivesse um diário, escreveria que ontem (na verdade hoje, porque eu ainda não dormi, então hoje ainda é ontem pra mim!) eu:

- acordei com sono e dormi de novo;
- fui acordado em seguida e fiquei de mau humor;
- recebi um telefonema de uma figura cuja voz eu não queria ouvir;
- fui mesquinho com ela;
- estava louco de vontade de ver minha filhota, e preocupado porque ela está dodói, mas não tive coragem de sair do quarto;
- me sinto um bosta quando faço isso;
- suspirei um bocado batendo papo no msn;
- ouvi If You're Feeling Sinister milhões de vezes;
- Não consegui continuar uma linha do "Amor e outros crimes" (pré-título do romance que ouso tentar escrever!);
- comi creme de abacate com granola (puts! tava muito bom!!!);
- não resisti e comprei mais chocolate meio amargo (resisti ao vinho!);
- fiz sala para parentes (dispensa comentários, né?!);
- comi muita broa de fubá com queijo, saindo do forno, acompanhada de um puta café bem forte;
- resolvi me mexer, tomar um banho e sair pra ver o céu;
- queria ter ido para o FIT, mas lembrei do show do (tinha ganhado ingresso dos caras... era gravação do primeiro DVD e eu fiz assessoria de imprensa pra eles no lançamento do 1º CD... e os caras são muito brothers, não podia deixar de ir!!);
- me senti vivo quando saí de casa;
- encontrei com uma das pessoas mais fantásticas que surgiram na minha vida;
- comemos filé com fritas com muito queijo;
- tomamos chopp;
- descobrimos que no shopping tem wireless free;
- meu amigo descobriu que dar ctrl+v sem ter certeza de qual foi o último arquivo que recebeu ctrl+c pode ser perigoso;
- sofri uma "paixão à primeira vista"(nem tanto, mas me controlei pra não sentar na mesa em frente a nossa!);
- fui a pé até o lugar do show, e foi a melhor coisa que fiz! A noite estava linda e BH fica muito mais charmosa com o FIT!
- descobri que o show iria começar duas horas depois do horário de abertura da casa (no convite o horário era 21h30... pensei que fosse a hora do show, porra!);
- pensei seriamente em voltar pra casa e comer mais chocolate;
- tive a sensação de ter uma parada cardiorespiratória - surgiu na minha frente, como mágica, a única pessoa que eu jamais imaginaria encontrar lá e que, definitivamente, eu não deveria ter encontrado;
- pensei em ir embora mesmo, mas aquele olhar, aquela voz... quase tive a segunda parada...
- encontrei MUITA gente conhecida. MUITA gente que há muito eu não via. MUITA gente que me fazia MUITA falta;
- revivi 4 meses em dez segundos (flash-back mais completo e rápido que já tive);
- me senti mal, muito mal;
- me senti bem, muito bem;
- fiquei constrangido por amigos que jamais imaginei pudessem me constranger;
- curti MUITO o show ("O MEU CABELO É VERDE AMARELO, VIOLETA E TRANSPARENTE, A MINHA CASPA É DE PURPURINA, MINHA BARBA AZUL ANIL" - ROCK'N ROLL ZÉ!!!!);
- fiquei louco de verdade por causa de um solo de batera...! (e olha que eu, definitivamente, não tenho muito espírito Rock'N Roll na veia);
- me senti, enfim, relaxado;
- tentei evitar, mas não conseguia desviar meus olhos o tempo todo;
- me senti um bosta;
- pensei novamente no tal do "fazer escolhas";
- aplaudi de pé no final do show! (Esses caras vão longe!!!!!)
- combinei teatro para próxima sexta - me senti ainda mais bosta por isso;
- voltei para casa sóbrio(acreditem, estava sóbrio!);
- voltei para casa seco, tenso, ácido;
- comecei a beber quando cheguei em casa;
- disse FODA-SE pelo menos dez vezes e consegui me distrair;
- li um blog quase inteiro (que, certamente, influenciou esse post);
- ouvi If You're Feeling Sinister sem parar um segundo sequer;
- desejei jamais ter me apaixonado um dia;
- desejei jamais me apaixonar novamente;
- desejei fazer alguém se apaixonar por mim;
- desejei não estar com tanto frio e com o coração tão gelado;
- lembrei mais uma vez do Caio ("Não, meu bem, não adianta bancar o distante: lá vem o amor nos dilacerar de novo");
- repeti meu nome milhões de vezes (não, isso não é TOC);
- resolvi escrever - olhei as horas;
- pensei no tempo - olhei as paredes e lembrei do meu antigo diário;
- tenho certeza que em cinco minutos ela vai explodir...
- quero colo;
- vou (tentar) dormir;
- são 5h52.

21.6.08

Lembranças

Você lembra? Não... não lembra. Na época nem supúnhamos nos conhecer um dia. E mesmo se nos conhecêssemos, não sei se você lembraria. Na verdade, acho que ninguém lembra, ou pelo menos nunca comentaram nada. Mas eu lembro e é exatamente isso que dói: eu. Ser verdadeiro consigo próprio é quase um exercício de tortura. E me torturo demais lembrando o brilho que meus olhos tinham. Você não lembra.

Desde bem pequeno, digo, bem novinho, eu criei o hábito de me encarar no espelho e conversar comigo. Sim, con-ver-sar, nada de falar sozinho. É uma daquelas técnicas que você escuta em qualquer conversa de gente grande, ou então que dá na TV mesmo, e então você chega em casa faz o exercício e o recria como se fosse seu. Foi assim que criei esse hábito de conversar comigo mesmo de frente ao espelho. Sim, con-ver-sar. Mantive esse costume por anos, até que o brilho começou a se ofuscar enquanto eu me afastava de mim.

Sabe que hoje eu acordei e vi que faz uma manhã linda, a primeira do inverno deste ano. Adoro as manhãs de inverno! Assim como as da primavera. Já as tardes, prefiro as de outono, e as noites, as de verão. Pois bem, lembrei que era inverno e me veio à mente algo que eu ouvi, certa vez, sobre o inverno ser a época do renascimento. Salvo engano tem a ver com a tradição wicca, (quando te conheci você era fã disso!), e que para eles esta estação representaria o período fértil, e que seria nessa época a comemoração do ano novo. Não sei ao certo. Mas lembrei disso e olhei pro céu e pensei por que não agora e depois pensei por que não antes e depois voltei pra cama e pensei mais em por que não antes.

A cabeça meio zuada e um gosto forte de cerveja na boca me fizeram pensar se eu não estaria bêbado ainda. Mas não. É apenas reflexo de mais uma noite de intenso vazio, dor travada na garganta. Lembrei da noite que não teve nada demais, mas que poderia ter sido mais que especial. Faltava alguma coisa. Várias coisas faltavam. Porque o vazio, como os buracos negros, sugam tudo o que está próximo e as coisas que você tem passam a parecer faltar também.

Lembrei das coisas que me faltam. E me vieram tantas coisas na cabeça. Coisas como um amigo de infância, como colegas de trabalho, amigos da escola, da faculdade, sem falar de outras coisas que conheci em lugares por onde passei. Sem contar aquele pôr-do-sol no alto da serra, ou o riacho cantando baixinho durante um estonteante amanhecer de primavera. Coisas. Lembrei das coisas que me faltam e pensei que as que mais doem não são aquelas que nunca tive, mas as que perdi. E concluí que perdi por que coisifiquei demais, e que coisas se perdem facilmente.

Lembrei das coisas que me faltam e depois me lembrei das escolhas que fiz. Escolhas são tão importantes. E inevitáveis. Escolher é arriscar e ter cinqüenta por cento de chance para o sucesso ou para o fracasso. Lembrei que poucas coisas comportam o meio-termo, é oito-ou-oitenta. Mas pensei que o equilibro é possível, apesar de difícil. Difícil, muito difícil fazer escolhas. Daí lembrei dos conselhos que pedi, dos que recebi sem pedir, dos conselhos que dei. E lembrei daquela senhora que aconselha o uso do filtro-solar. Procurei o vídeo e o revi. Lembrei de como pode ser proveitoso ouvir palavras de auto-ajuda.

“Não seja leviano com o coração dos outros, não ature gente de coração leviano.” Queria conhecer essa tal senhora, gosto dos conselhos dela e me admira sua experiência de vida. Queria não conhecer gente de coração leviano. Queria saber ao certo quem é leviano comigo e se disfarça, ou disfarço. Queria me antecipar à minha leviandade também. Lembrei dos amigos, dos colegas, dos companheiros, dos oportunistas, dos falsos e lembrei de novo das coisas que me faltam. Faltam tantas.

Lembrei que fazia uma linda manhã de inverno, a primeira do ano, e que merecia caminhar um pouco, respirar um pouco, sentar ao sol. Apanhei o cigarro e, pouco me importando com a minha cara amassada ou com o bafo de noite com dor travada na garganta, saí. O cachorro me acompanhou até o portão e com um leve gemido me fez lembrar que ele foi meu grande companheiro e eu o abandonei. Uma coisa que não perdi, mas esqueci ao meu lado. Apanhei também a coleira e saí com meu grande companheiro, hoje velho, cego, fedorento, mas ainda companheiro, carinhoso, honesto e leal.

De muitas coisas lembrei enquanto caminhava ao sol, fumando, e segurando meu velho companheiro pela coleira. Lembrei de antigos sonhos, de músicas, poemas, de cheiros e sabores. Lembrei do mar. Quanta saudade sinto do mar. Lembrei novamente das coisas que me faltam e que são tantas. Lembrei de você. Lembrei ainda de como pequenos hábitos são importantes. Bons e simples hábitos, como o de passear com seu cachorro ou como aquele de se sentar de frente ao espelho e conversar consigo próprio. Lembrei que falo muito sozinho e que há tempos não converso comigo. E foi então que lembrei do brilho que meus olhos tinham. Lembra?

11.6.08

Curtas





"Ah insensatez
que você fez”

Tom Jobim



"Não cante o humano coração com mais verdade" sentenciou Vinícius de Morais em um de seus mais belos poemas. O coração humano é fraco, embora saibamos todos que há quem o tenha duro e frio como uma rocha (ele certamente pensava assim!). Amar como amigo, como bicho, sem mistério, sem virtude, com desejo, com saudade, com calma e com isso tudo sendo real. Este deve ser, realmente, o Amor Total (imperdível o clip acima! ao final Vinícius declama o Soneto do Amor Total).

Versos bêbados

Andei pensando muito no amor ultimamente. Coisa louca deve ser esse tal de amor! Digo deve ser porque acho que nunca experimentei o tal do amor, não o fraterno, de pai, que mais perene não há. Falo do tal do amor mesmo. Já experimentei vários tipos de amor, sabe como, amor de amigo, amor de infância, amor de verão, de outono, de primavera, de inverno, amor bossa nova, amor rock'n roll, amor de uma noite só, de um beijo só, amor pra sempre e amor pra nunca mais também. Já sei: vai dizer que amor é só um, que o resto é paixão, é tesão, é carência e tal. Se disser, eu vou concordar com você. Mas prefiro pensar em tipos de amor, porque me conforta mais, porque me faz acreditar que já amei várias vezes, algumas vezes. Não quero pensar que o que carrego sejam apenas migalhas de amor. Lembranças.

Dia dos namorados

Nesta semana uma amiga, que é louca pelo namorado que também é louco por ela, reclamou que estão duros e, que apesar de terem programado uma comemoração bem especial para a data, vão ficar os dois em casa. Disse isso com um ar de tanto pesar... Parei para pensar em como são as coisas: nunca estamos satisfeitos com o que temos. Enquanto ela queria jantar, motel, presentes, tudo o que eu queria era alguém. Queria apenas o cafuné, o calor da pele, o brilho dos olhos, o cheiro, a voz...

Lendo Caio Fernando Abreu mais uma vez

"Não compreendo como querer o outro posso tornar-se mais forte que querer a si próprio"

7.5.08

Soltando a Voz




"Um sentir é o do sentente,
mas o outro é o do sentidor”

Guimarães Rosa




Nada mais difícil que dar nome às emoções. Vivemos num mundo no qual se valoriza o ter, não o ser. Valores como simplicidade, honestidade, companheirismo, respeito, entre tantos outros, são postos de lado por valores que atribuem poder (status?). E no meio dessa inversão de valores, surge a hipocrisia dos homens.

Caio Fernando Abreu narra em um de seus melhores contos a angústia de dois rapazes que são condenados pela hipocrisia daqueles que lhes são próximos. Aparentemente reprimidos, os dois são envolvidos por um sentimento que não conseguem compreender. Mas outras pessoas julgam entender que sentimento é esse...

Ouça o conto Aqueles Dois. Depois reflita se você é medíocre como os outros, ou se é capaz de perceber a amizade como um sentimento sublime. Perceba se você, como nas palavras de Guimarães Rosa, é um “sentente”, ou um “sentidor”.


E.T.: Há tempos tenho vontade de postar aqui no Solilóquios arquivos de áudio. Muita gente não tem paciência para ler, ou não tem tempo para desprender à leitura de um texto, então resolvi gravar o texto do Caio e divulgá-lo aqui. Confesso que é também uma forma de soltar minha voz no mundo virtual!!! O blogspot não aceita arquivos de áudio, e por isso publiquei o áudio no acidplanet.com. Se preferir, acompanhe o áudio lendo o texto na íntegra.

25.4.08

Intangibilidade

Relendo:
Fragmentos – Caio Fernando Abreu

"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso. A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.”




Não compreendo o que se passa e já estou farto dessa procura inútil por razões que justifiquem o meu agir, o meu pensar, o meu sentir. Trago da infância certa carência afetiva que tento disfarçar hora com drops de menta forte, hora com um copo de aguardente. Por isso essa sede é tão insaciável - não há parâmetro. Não tenho ponto de equilíbrio, meios termos, ou qualquer outra coisa que possibilite o controle dessa disritmia.

Diz que saturno não anda muito bento e que por isso as chamas dos que são de fogo estão mais intensas e instáveis. Que me importa saturno? Se ele tem anéis tão lindos e ainda assim não se sente belo - ou se gosta mesmo é de implicar com seres menores - que tenho eu haver?

Fragilidade. Vontade de chorar, de gritar, de sumir. De assumir não ter força. Vontade de viajar pra longe, bem longe, sem data de volta, sem destino, sem avisar, sem despedir, sem olhar pra trás, sem lembrar de ninguém. Sem importar com quem fica, com quem se importa com onde e como fico.

E no auge desse egoísmo ainda querer ser lembrado, desejado, querido. E no limite desse mesmo egoísmo querer que alguém me entenda; que compreenda que parti aos poucos para não ter que deixar recado e ainda assim querer ser lembrado ou, mais ainda, respeitado.

26.3.08

Da Redação

Relendo:
Carta ao Zézim – Caio Fernando Abreu

“...Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / Círculo vicioso...”




Um gosto amargo de melancolia e desamor se mistura ao gosto azedo do tabaco e à acidez da cafeína. Muitos cigarros e muitos cafés em meio à agitação obsessiva em busca de alguma tal verdade qualquer. Fatos, notas, boletins. Politiquices, politicagens, sangue, desastres, tragédias, desigualdades, impunidades, injustiças. Deus, salvai o vosso povo!

O tempo que não pára corre lento junto ao gosto amargo que comprime a glote. Ansiedade por fatos pessoais que não se concretizam. A manhã é branca, mas das vidraças vê-se o amarelo sutil de um sol tímido por trás do resto de serra ainda verde. Lá em baixo — reflito — muitos escutam minhas palavras. Lá em cima — pressinto — alguém me observa sem se pronunciar.

Dentre algumas horas ganho novamente a rua. Sairei a esmo em meio ao pó seco e cinza do asfalto. Nelson à tira-colo e Caio, certamente, me repetindo sua prosa impura. Como de praxe, uma canção se fará trilha sonora da memória triste. Talvez Betânia com sua versão daquela música do Herbert ou, quem sabe, aquela antiga da Rô Rô, ou qualquer outra que trate de eufemismos.

Os dedos estarão, como há tempos, compridos como que tentando espremer o tempo numa ânsia de que tudo mude em poucos minutos como na manhã de gosto amargo. E a ansiedade se fará ainda mais presente a cada ameaça de toque do telefone, esperando ouvir aquela voz que não fala, que não mente, nem tampouco diz verdades. Esperando ouvir qualquer “saudade”. Esperando... desesperado.

10.3.08

A desordem (das coisas), na (quase) ordem dos fatos



“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", já dizia Lavoisier. Somos parte de um processo contínuo. Dependendo da perspectiva, somos um processo em si. Entendo que todo processo é desordenado. E é justamente na desordem que as partes distantes podem se juntar, e que outras partes podem se separar. E assim se forma um corpus mais coeso, mais uniforme, e o processo se conclui para, então, gerar um novo processo, novamente em desordem.

Já virou pleonasmo Solilóquios e desatualização! Mas eu não o abandono. Esse cantinho guarda registros da desordem dos meus processos. É aqui que registros grandes momentos de desordem e, assim, tento ordenar o pensamento.

Há um bom tempo tudo se apresenta a mim em grande desordem. O ritmo de vida parece aumentar ainda mais as turbulências. Daí vem uma mistura de sentimentos díspares e o alarme soa emergência. E se nesse a instante piso o acelerador com maior ânsia de corrida, em seguida o freio não funciona e os impactos são muito mais pesados.

O “bom tempo” ao qual me refiro não carece de data inicial, menos ainda data limite. Não é um todo, é apenas parte de um processo que começou lá atrás, e que termina lá na frente.

Os que me conhecem já devem estar prevendo um post looooongo e melancólico. Adianto, aos que se aventurarem a prosseguir, que dividirei o relato em “pílulas”, pequenos registros, para parecer menor (!). Já quanto ao teor melancólico, se for notado, é apenas reflexo do estilo de linguagem!

E para ninguém dizer que não falei das flores ao narrar a desordem...

Das Flores

Num certo dia da primavera passada, caminhava pelas ruas quando uma flor chamou-me atenção em um canteiro. Havia muitas flores, mas ela se destacava pelo tamanho e pelas cores. Achei muito estranho, mas ela era furta-cor. Combinava muitas cores que jamais vi em uma da espécie. Tratava-se de uma azaléia. Em sua volta, outras azaléias pequenas nas cores rosa, branca, vermelha e violeta. Todas belas. Mas, em meio à desordem genética, aquela flor, com grande sensibilidade, soube organizar aquele caos e configurar-se a maior e mais bela azaléia do canteiro.

Das coisas “quase”

Tão pior que o “se” ou o “será” é o “quase”. “Quase” não significa nada, ou “quase” nada, a não ser uma negativa. Quase conseguir é não conseguir. Quase terminar é não terminar. Quase esquecer é não esquecer. Quase vencer é perder. Do contrário, poderia dizer que pensar assim é ser quase relativista.

Das escolhas

Amadurecer é fazer escolhas. Percebo assim. A vida nos cobra atitude a todo tempo. Temos o livre arbítrio para agir, não para ficarmos inertes. Mas fazer escolhas não é um processo simples, mecânico, automático. Ao contrário. Lei da ação e reação: cada possibilidade representa resultados desconhecidos. Na inconseqüência da puberdade escolher é tão natural quanto acordar. Mas chega um ponto que a vida pede prudência.

Do dinheiro

É vendaval: a falta ou a fartura das tais verdinhas (no nosso caso oncinhas, peixinhos... rs!). Como uma sociedade que teve suas relações comerciais originadas na base do escambo pode hoje ser tão obcecada pelo acúmulo de riquezas? Como podem as pessoas serem tão escravas de um poder simbólico? Respostas simples: dinheiro. Obra que o “coisa ruim” deixou quando passou por aqui, por volta do século XV...

Dos vícios

Li um livro que me inquietou por demais: Os Irmãos Karamazovi, do Dostoiévski (recomendo!). Se fosse citar todas as partes que mais me impressionaram, gastaria no mínimo oito laudas (já escrevi algumas considerações sobre o livro e foi este o tamanho do texto.). Logo no início há uma passagem em que um ancião discursa para algumas pessoas em seu aposento. Dirigindo-se especificamente a um homem em especial, o ancião fala do poder destrutivo da mentira. Dizia o ancião que a mentira leva o homem ao pior estado da alma. Acrescentava ele que da mentira ao próximo, o homem passa a mentir para si mesmo. E que da mentira a si próprio o homem se entrega aos vícios e passa a viver em profunda lascívia. Passado algum tempo após essa leitura, compreendi o que dizia o sábio ancião. E foi muito triste tal descoberta. É triste ver alguém que lhe é querido se desmoralizar. É muito triste ver alguém que você tanto preza perdido, pedindo ajuda, mas negando auxílio. É muito triste você ver alguém que você ama sofrendo, enxergando apenas trevas sem se interessar mais pela luz. É muito triste...

Das frustrações

Uma alma muito iluminada, a quem tenho a honra de ser amigo, traduziu perfeitamente o modo como conduzo minhas relações pessoais. Disse-me ela o seguinte:
“Dani. Você sabe que eu nunca me entrego de cabeça em nenhuma relação. Nunca espero nada de sublime em ninguém. Sou resistente em me tornar íntima. Ao contrário de você, que se entrega completamente a qualquer pessoa. E veja só: as pessoas acabam me surpreendendo. Já você, sempre se decepciona. Daí fica frustrado, e nem pode dizer que a ‘culpa’ é da outra pessoa.”

Da saudade

Dentre as várias decepções e frustrações recentes, uma tem maior peso que todas. Pesa mais porque pesa em dobro, já que ambos nos decepcionamos. Um mais que o outro, talvez. Toda decepção dói bastante, e essa também doeu em dobro. Decepcionar implica, necessariamente, em perder: a confiança, o carinho, o respeito, a companhia... De fato, é somente quando perdemos algo que lhe damos o devido valor. E somente depois de perder descobri que amava. Mas acabou. Os cheiros voltam, as músicas sempre tocam, as fotos não desbotam. Mas, acabou. Enfim, de tudo descobri algo que, certamente, mudou (está mudando) a forma com a qual me relaciono com as pessoas e, principalmente, com o passado. Descobri que cada pessoa tem o lugar que merece em nossa vida. E se esse lugar for o passado, que seja o passado. Isso não diminui, de forma alguma, o valor que ela tem na nossa vida. Pelo contrário.

Do sistema

O “furacão” Tropa de Elite passou e deixou no país uma ideologia de que é a classe média, digo, o maconheiro da classe média, que financia o tráfico de drogas e todo o terror que este acarreta. Particularmente, acho que trata-se de uma conclusão absolutamente reducionista de um problema que tem causas inúmeras, de origem histórica e que envolve todas as classes sociais do país, incluindo usuários e não usuários de droga. Vivi recentemente uma situação que jamais imaginei viver. Fui vítima do sistema em duas vertentes: a dos bandidos e a da polícia. Vivi momentos de terror, sob ameaça de morte. O sentimento de impotência e a humilhação foram superados pelo alívio de permanecer vivo. Passado o terror, vivi o pânico de ter que recorrer à uma polícia hipócrita, mesquinha, corrupta, preconceituosa, que privilegia classes em detrimento do cidadão. E os culpados são os maconheiros?

Do pensamento

“Cuidado com o que você pensa”, me alertava um amigo. Como se fosse fácil controlar o pensamento. Razão e emoção não se equilibram – ao menos para mim. E no meio daquela certa insanidade, literatura, música e cinema catalisam meus desatinos. Não abro mão das artes e não me furto o pensar. Então, de nada posso reclamar. Mas peço calma ao tempo: pára mundo que eu quero descer!

Do inferno astral

Não tem jeito, ele sempre vem. No mês que antecede o aniversário o chamado “inferno astral” me incomoda a alma. Percebo-o como um momento de maior introspecção, no qual começo a julgar com maior sinceridade os meus próprios atos. É doloroso e confuso porque implica no julgamento de valores pessoais que balizam nossa conduta. A verdade dói, todos dizem. Mas, percebo que a evolução existe. Neste ano sinto-me mais seguro, mais homem. Balanço, mas tremo. Tropeço, mas não caio. Hesito, mas não paro. Em breve comemorarei meu ano novo, com a certeza de algo sempre muda, que alguma coisa sempre acontece, e que depois da tempestade, sempre vem a abonança.

3.1.08

Intempérie



“A vida é a arte do encontro,
embora aja tanto desencontro pela vida”
Vinícius de Morais




De fato havia em mim certo desconcerto que não procedia de qualquer desventura que não a insólita experiência do não viver. Era como se, de algum modo, a vida me soprasse lembranças de terra não vista. Começo pedante — eu sei — embora me achando prosaico, as reverberações desse conjunto bizarro o qual, impensadamente, chamo de eu. São desconsolos em fala escrita de quem jamais soube o que é um verdadeiro encontro.

Sentado à mesa, roto, observava a vida tola, sua gente escrota, e maldizia o vento quente, a hipocrisia dos fortes, a arrogância dos fracos, o bêbado insano da mesa ao lado. Inquietude a cada trago, desilusão a cada gole. Em um momento de maior excitação e blasfêmia, desejei assumir o lugar do bêbado e bradar aos quatro ventos a náusea que, naquele momento, me afligia.

A vida me é, às vezes, pesada demais. Dói, arranha, machuca, incomoda, sei lá. É tanto querer suprimido pelo não pedir, pelo não dizer, pelo não tentar. E especialmente naquela noite eu me sentia extremamente só, vazio, perdido e desprotegido. Queria falar e, talvez por isso, invejava o bêbado que falava sem parar, desprendido de formalidades ou de qualquer preocupação hipócrita daquelas que temos quando em público.

O acaso (ou isso que ao acaso chamamos de acaso) resolveu pregar-me uma peça. Já que queria eu falar, enviou-me uma pessoa ouvinte. Existem pessoas falantes, como eu, que falam. Há também pessoas ouvintes, como ela, que ouvem, ou escutam — tanto faz. E falei muito naquela noite. Assim como nas várias noites que se seguiriam, eu falei muito e fui ouvido (ou escutado). E daquele fortuito encontro surgiria em mim um sentimento que viria a me servir, ao mesmo tempo, de antídoto e veneno.

É sabido que em certa região da Espanha o alto índice de insanidade mental é causado pelos fortes ventos quentes — tão violentos que chegam a espalhar fogo em vilas e plantações. Talvez o mesmo tenha me ocorrido... Os ventos quentes de outubro trouxeram à tona minha insanidade adormecida. E outras tantas violências primaveris vieram catalisar meus desatinos.

Sempre em busca de um tipo "ideal" , vejo-me ridículo em meu romantismo. Patético, não hesito dizer. Mas, no fundo eu gosto dessa fuga. Sim. Porque querer apenas o "ideal" é fugir de tudo que pareça palpável, sólido e real. Medo? Deixo-me a dúvida.

Sem me dar conta (ou, quem sabe, disfarçando o que já percebia) minha vida foi se misturando à daquela pessoa que me ouvia. Ou talvez fosse eu mesmo quem misturava a vida dela à minha. Não sei. Percebo apenas que não pude evitar. Ir ou não ir, querer ou não querer, ligar ou não ligar, dizer ou não dizer, pensar ou não pensar, sentir ou não sentir... Nada. Tudo parecia tão natural e seguro que eu, simplesmente, ia.

Fui sem saber aonde poderia chegar. Era tão agradável a caminhada... Não valia a pena - eu pensava - perder tempo com qualquer neurose, pseudo-moralismo ou coisa do tipo. A vida é tão curta, eu dizia, que se não a agarramos com força, ela nos escapa por entre os dedos.

São os momentos que dão significado à vida. E são os atributos dos instantes que compõem estes delicados momentos que determinam a intensidade de cada experiência. Experimentava eu o contato com o outro, de forma muito peculiar se comparada a experiências por mim já vividas. Talvez em função da singularidade daquele contato, como que involuntariamente, eu utilizava artifícios vis para prolongar e intensificar, simbolicamente, aqueles instantes nos quais por ela eu era ouvido.

Utilizo o termo "involuntário" para designar um estado em que o impulso se torna mais forte que a razão. E, honestamente, demorei a perceber que agia impulsivamente. A "coisa" (para não perder tempo procurando nomear esta minha intempérie) me era tão bruta que, de repente, me peguei escrevendo versos cujos significados não conseguia compreender — nem sequer percebia ao quê, nem a quem, me referia. Durante o trabalho, ou mesmo compenetrado nos estudos, rascunhava frases como "Socorro, eu não sinto nada além de desejo." "Quero aquele, quero aquilo, quero tudo isso." "Sonho que estou dormindo e acordo com a certeza de estar sonhando." "E Teu cheiro... cheiro forte, cheiro de quero hoje, quero agora, quero.".

Afinal, o que (ou quem) eu queria? Sempre procurei paixões como força propulsora de minha motivação pessoal, embora preservasse a lúcida consciência de que o objeto do desejo é sempre maior do que o próprio desejo. Contudo, jamais reconheci em mim este "real" e latente desejo. Nem o seu tipo "ideal" fui capaz de rascunhar de forma mais verosímil. Por isso, objetos criei inúmeros. E aquela pessoa ouvinte, vim a perceber, era mais um objeto de paixão por mim personificado.

Chama-se de amor platônico aquele em que o simbólico é o lugar de despejo das punções. É unilateral, já que é experimentado em silenciosa solidão. E é traiçoeiro, pois transfigura o ser amado em um objeto sublime. Ao refletir sobre essa visão do amor platônico, senti-me tranqüilizado por perceber que não enxerguei, em momento algum, qualquer característica esplêndida naquela pessoa. Nem mesmo sua condição de ouvinte me parecia majestosa. Então, por que tamanho encanto? Talvez porque a atenção que demonstrava a mim alegrava-me profundamente, e o seu silêncio, guardado pelo olhar indecifrável, inspirava-me por demais.

Quando, enfim, me julguei apaixonado, em retórica questionei "será que dessa vez será diferente?". Sinceramente, pouco me importava, àquela altura, as semelhanças ou diferenças com qualquer experiência já vivida. Me via estúpido por ter consciência da minha estupidez ao entregar-me, mais uma vez, às ciladas do desejo. Mas, repito, tudo fora tão natural que eu, simplesmente, ia.

Foi através de um simples recibo de cinema que percebi a paixão que me envolvia. A expressão "kit casal" nele impressa desencadeou a rememoração de uma semana de encontros diários — digna de casais em início de romance. O filme em questão era uma comédia romântica, com direito a muito mamão com açúcar, pipoca e refrigerante. Houve também encontros ainda mais bucólicos em praças, exposição artística, Café com clima "cult" e longas madrugadas à som ambiente e meia-luz.

Recordei-me agora que na mesma noite em que fomos ao cinema, ao encontrarmos com pessoas que não sabiam o que fazíamos antes de encontrá-las, nos foi questionado se éramos namorados. Outras pessoas, em situações distintas, também me fizeram a mesma pergunta. Será que havia algo em nosso olhar ou, quem sabe, formávamos um campo magnético em torno de nós capaz de despertar tal desconfiança?

Já consciente do simulacro de romance que havia eu criado, pude distanciar-me de mim mesmo e julgar-me como quem observa um desconhecido. Esse distanciamento foi providencial para conter aquele sentimento que, se alimentado ainda mais, inevitavelmente se consolidaria em angústia. Fui sincero e honesto comigo mesmo. Percebi que havia muitos atributos que diferenciavam essa paixão das que vivi anteriormente e que, assim, talvez não se configurasse paixão. Não recordo-me de nenhum instante em que tivesse sido arroubado por qualquer desejo libidinoso em relação àquela pessoa. Para um libertino confesso, a ausência do desejo carnal revela um sentimento muito mais fraterno que apaixonado, acredito. Vale lembrar que o desejo do toque, mesmo quando desperto pelo cheiro da pele, não se refere obrigatoriamente a um desejo sexual.

Todavia, se considerados os questionamentos despertos pela análise daquele contato, todo aquele sentimento se assemelhava às antigas paixonites. A impossibilidade de interpretação de inúmeros gestos, palavras, expressões e até demonstrações diretas de afeto, chegaram a me fazer confundir "platonice" com reciprocidade daquele desejo disforme.

Houve sinergia entre nós? Não tenho dúvidas que sim. Comunhão, houve? Talvez. Reciprocidade? Quem sabe... Em algum instante, teria ela indagado a possibilidade de também estar envolvida como eu? Acho pouco provável. E se eu tivesse revelado a dúvida, qual seria a sua reação? Perguntas que se extinguem no "será?", "e se", "mas, se", "se".

Lembrei-me que em uma daquelas madrugadas em que era ouvido, confidenciei ter percebido, na libertinagem, que o gozo é fugidio, dado o seu caráter efêmero, e que o calor do toque é mais perene que o calor do ato. Analogamente, ao final de todo o processo catártico daquela paixão amorfa, percebi que buscava naquela pessoa não a efemeridade de um romance, mas a perenidade de um relacionamento em que o interesse mútuo fosse a partilha de idéias. Estas, capazes de auxiliar ambos a conhecerem a si próprios. Por isso, senti-me imensamente feliz e realizado ao ser chamado de amigo.

Apesar de julgar pouco provável que ela venha a ler este texto um dia, tenho certo receio de qual poderá ser a sua reação. Sentir-se-á ultrajada? Espero, sinceramente, que não. Menos ainda desejo que se compadeça por mim. Ao contrário, quero que sinta-se lisonjeada por ser capaz de despertar no outro sentimentos tão sublimes. E, principalmente, que se orgulhe por ter contribuído sobremaneira com o processo de amadurecimento de um homem cujo espírito adolescente age desenfreado como o de um menino afoito. Acima de tudo, que lhe desperte, ou aumente, o desejo de consolidar uma bela e sincera amizade.

Por fim, julgo pertinente tecer mais uma consideração sobre a paixão que, sei, está à espreita de qualquer deslize meu. Paixão é sempre um falso encontro. É aquela velha história: João que encontrou Maria que encontrou José que encontrou Sofia que encontrou Joaquim que encontrou Tereza que encontrou Cecília que encontrou Pedro que encontrou Fernando que, lúcido, foi o único a perceber que, em verdade, todos aqueles não haviam encontrado ninguém — ao contrário, estavam apenas perdidos de si próprios...

2.9.07

Percepções


“A beleza do mundo está na cara do feio!” Foi assim que Patrícia Amaral, cantora belo-horizontina, relatou em uma de suas músicas a percepção que tem em relação à beleza humana. Concordo plenamente com o argumento de Patrícia. A beleza de uma pessoa reside em um sorriso alegre, não naquele esteticamente perfeito; é refletida por um olhar radiante, cujos olhos não carecem de tons azuis ou verdes; é emanada por uma aura contagiante, que jamais é esboço de um corpo perfeito.

Declaro sempre minha paixão por gente. Apesar de muitas vezes frustrado por atitudes que me deixam descrente da pessoa humana – que é cheia de defeitos e age sempre por interesses – insisto em buscar no cerne da alma a divindade que nos caracteriza homo sapiens sapiens. É a essa busca que atribuo minha paixão pelo jornalismo. Muito além de reportar fatos, acumulo em meu ofício histórias de gente. Inclusive, já declarei aqui que é o humano que me inspira. Cada um carrega em sua história de vida um ponto comum a todos os seres, mas que é apreendido e compartilhado de forma particular.

Prega o cristianismo que somos feitos do mesmo barro e que também é único o nosso destino. Talvez por isso sejamos tão semelhantes em nossas aflições e angústias, anseios e desejos. Pouco importa o local onde nascemos, a família com a qual nos criamos, os amigos que cultivamos, se somos pobres ou abastados, cultos ou analfabetos, homem ou mulher... nossa busca é sempre a mesma.

Mas, afinal, o que buscamos? Liberdade? O paraíso? Um amor? Ou seria simplesmente paz de espírito? É isso o que almejo compreender. É essa curiosidade que me faz sentar ao lado de um mendigo e tragar com ele alguns cigarros que desencadeiam certa prosa, ou me faz reunir crianças em uma pracinha de interior e com elas conversar brincando. É com a mesma curiosidade que converso trivialidades com um artista famoso; que assisto a filmes; que leio livros. Qualquer oportunidade de conhecer gente é por mim aproveitada.

Em verdade, não é qualquer pessoa que me interessa conhecer (assim como não é qualquer filme que me atrai em uma locadora, ou qualquer obra que adquiro em uma livraria). É preciso muito mais que um rosto bonito para me despertar qualquer interesse de aproximação. É necessária uma capacidade de render assunto por mais de uma cerveja; uma fresta de sinceridade no olhar; certa sutileza de gestos; e uma empatia que, sinceramente, não esteja associada à afetividade ou à sexualidade.

Minha busca, marcada por encontros e desencontros, não é sempre voluntária. Em diversas situações o acaso (existe mesmo esse tal de acaso?) coloca em meu caminho pessoas que jamais imaginaria conhecer e que, de alguma forma e por algum motivo, se tornam singulares.

Há pouco tempo vivi um momento de fossa, daqueles “pára mundo que eu quero descer”. Para distorcer tal estado de espírito, me vali da volúpia ao exaltar os símbolos máximos da luxúria (quem já leu A Casa dos Budas Ditosos, saberá do que estou falando). Seria um fim de noite ainda mais imundo se não cruzasse meu caminho uma pessoa completamente diferente das que poderia encontrar naquela situação. Houve um bom diálogo, certa troca de experiências de vida e grande interesse, de minha parte, em conhecê-la melhor. Identifiquei-me muito com a história de vida dela. Apesar de conter fatos, ambientes e personagens diferentes, as experiências nos são muito semelhantes.

A princípio, não haveria qualquer possibilidade de um reencontro. Mas, algumas casualidades proporcionaram sim outros contatos. Não posso, de forma alguma, fazer qualquer juízo de valor em relação a ela, pois, infelizmente, tais contatos não foram suficientes para conhecê-la. Todavia, mais essa experiência serviu-me para fortalecer a única certeza que pude, até hoje, definir quanto às relações humanas (e que contraria o jargão popular): a primeira impressão, definitivamente, é a que NÃO fica.

20.8.07

Carpe Diem

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria; aperta e depois afrouxa e depois desinquieta. O que a vida quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a sorrir no meio da tristeza. Todo caminho da gente é resvaloso, mas cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sobe, a gente volta” – Guimarães Rosa

Voltei. Com certeza ainda não foi para ficar. Mas, cá estou: projetando, divagando, construindo, cantando e, principalmente, sorrindo. Observando a vida como quem assiste a um filme. Não se trata de encarar a vida como ficção, não é isso. Mas de sentir as emoções com a mesma naturalidade com a qual a retina capta a luz; de perceber o movimento do dia e da noite através dos sons; de oferecer ao paladar sabores que remetem à infância; de sorrir e chorar com a certeza de que há sempre mais surpresas.

Retirei da gaveta o (auto) roteiro inacabado. A experiência na escrita me ensinou que sempre vale a pena reescrever um texto. Aproveita-se as boas idéias e novos sentimentos melhoram o tom da narrativa. Diria que antes o foco era o teatro. Agora almejo a sétima arte! No tablado há um centro em torno do qual acontecem os fatos. Há superficialidade no trato com os personagens (por vezes até com o próprio enredo). Já no cinema há possibilidade de captar o todo; de dar destaque a um gesto que o mereça ou de pôr em extra campo algo que crie mais expectativas.

Quando pintado de romance, um roteiro ganha muito mais charme. Assim como ir ao cinema é mais gostoso quando bem acompanhado! Mas, isso é matéria de tempo (ou de vento, já disse algo semelhante aqui). Enquanto isso, “carpe diem”!

P.S.: A epígrafe já foi usada antes, mas pediu para ser repetida! E aos pouquíssimos leitores que ainda visitam o Solilóquios, agora acho que enfim conseguirei atualizar como pretendo!

9.7.07

Borboletas



Existe aquela velha teoria, relatada em filme, que demonstra que o simples bater de asas de uma borboleta no extremo norte do planeta pode resultar em um tufão no outro lado do mundo. Na verdade, tal teoria não procura necessariamente explicar um fenômeno físico, mas acrescentar artifícios à teoria do caos. O efeito borboleta, segundo o teórico que a definiu, pode influenciar o curso natural das coisas... (aqui, neste momento, só cabem reticências).

Algumas borboletas bateram suas asas anos antes do meu nascimento, e os efeitos pude perceber, multisensorialmente, no último dia 5. Psicodelia não se relata em palavras brutas, portanto me reservo ao direito de dizer somente que ouvir Panis Et Circenses ao vivo não tem preço.

Assistir ao show dos Mutantes foi metafísico, pelo complexo fato de ser Mutantes. E as borboletas no palco não têm explicação!

10.6.07

(Auto) Releitura

Relendo:
Água Viva – Clarice Lispector

“O risco – estou arriscando descobrir terra nova. Onde jamais passos humanos houve. (...) Meu número é 9. É 7. É 8. Tudo atrás do pensamento. Se tudo isso existe, então eu sou. Mas por que esse mal-estar? É porque não estou vivendo do único modo que existe para cada um de se viver e nem sei qual é. Desconfortável. Não me sinto bem. Não sei o que é que há. Mas alguma coisa está errada e dá mal-estar. (...) Abro o jogo. (...) Eu me aprofundei mas não acredito em mim porque meu pensamento é inventado.
(...)
Terei que de novo morrer para de novo nascer? Aceito.”




Não existem mentiras. Há verdades inventadas. Já fatos são fatos, não há discussão. É fato que algo está errado e é também fato o mal-estar. Arriscar é preciso. Assim como é urgente caminhar em nova terra ao próprio passo – e relatar a viagem com palavras também próprias. Autoconfiança é diferente de crença em si próprio. O jogo sempre esteve aberto esperando ser jogado. Aceitar a morte é metáfora para o recomeço.
Aceito.

22.5.07

Ao Vento


Explicar o que não se traduz em palavras?
Confortar quando não há consolo?
Falar de primavera em pleno outono?
Como?

Não houve tristeza, injúria ou blasfêmia.
Engano também não existiu.
O saldo é positivo, a beleza e doçura se destacam.
Medo?

Insegurança e incertezas.
Egoísmo acima da paixão.
Se não é para ser inteiro, que não seja apenas metade.
Zelo.

Resta o “se” depois do silêncio.
Sobra saudade depois do “se”.
Entendimento agora é matéria de tempo.
Ou de vento.





Relendo:
Soneto da Separação - (Vinícius de Morais)

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

9.5.07

Do Quarto Azul